Fim do Ciência sem Fronteiras leva jovens a buscar novas opções de intercâmbio


O fim do programa Ciência sem Fronteiras para os estudantes de graduação não é novidade. Em outubro de 2016, o Ministério da Educação (MEC) anunciou uma repaginação completa no programa que, segundo a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), ganharia novo formato para atender alunos de pós-graduação de todos os cursos, inclusive da área de humanas.

Iniciado em 2011, o Ciência sem Fronteiras previa que 101 mil bolsas fossem concedidas a estudantes interessados em estudar no exterior. Destas, 75 mil seriam custeadas pela União e 26 mil pela iniciativa privada. No entanto, com a concessão total de 92 mil bolsas, o país chegou a investir R$ 12 bilhões em cinco anos.



Segundo a publicação UFBA em Números, produzida pela Pró-Reitoria de Planejamento e Orçamento (PROPLAN) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 2016, a redução no número de chamadas pela CAPES e CNPq passou a acontecer a partir de 2015, quando houve queda de 2/3 no número de estudantes de graduação que participaram de mobilidade acadêmica graças ao Ciência sem Fronteiras pela UFBA.

Para a assessora de Assuntos Internacionais da UFBA, a professora Mirella Lima, o programa não passa por um momento de estreitamento, mas pode estar esperando por um fim iminente. "Eu não devo nem dizer retração, eu devo dizer fim", afirmou. "Há muito tempo estão anunciando a nova edição do Ciência sem Fronteiras, mas até agora não apareceu e, quando aparecer, será aberto para todas as áreas [do conhecimento], mas para doutorado e pós-doutorado", explicou ela, revelando também que bolsas de mestrado não estariam disponíveis nesse novo formato do programa.

Segundo a assessora, os órgãos que têm competência para discutir tais assuntos, como a CAPES e o CNPq, apresentam agora um novo modelo de cooperação que pode incluir estudantes de graduação, mas com uma proposta de parceria vertical. Isso aconteceria no caso de dois grupos de pesquisa já possuírem uma parceria de cooperação acadêmica consolidada e, após alunos de doutorado e pós-doutorado transitarem dentro dessa verticalidade sólida, um estudante de graduação poderia eventualmente ser também enviado. "Um estudante de graduação isoladamente tentar um contato para ir para o Ciência sem Fronteiras, não aconteceria", explicou ela.

Os destinos mais escolhidos pelos estudantes de graduação baianos incluíam Estados Unidos, Reino Unido e Canadá
Mirella Lima acredita que há uma certa "moda" em falar dos erros do Ciência sem Fronteiras, mas reconhece que o programa não teve maturidade e atuou para uma massa. "Não havia discussão com as universidades, a CAPES implementou o programa e as universidades sequer eram órgãos consultivos", criticou a assessora.

O ex-estudante de geofísica da UFBA, Rafael Manenti, 27, concorda que a execução do programa contou com algumas falhas. "Diversos estudantes foram para a Europa e não estudavam como era esperado", criticou Rafael, que participou do programa no ano de 2012. "Muitos pegavam poucas disciplinas, às vezes de nenhuma relevância para o curso, apenas para cumprir carga horária e poder viajar", lembrou. "Isso contribuiu para que os estudantes não aproveitassem como deviam o intercâmbio, e para que o dinheiro investido neles fosse de certa forma um desperdício", ponderou o estudante.

Já para a graduanda em física na UFBA, Roseane Reis, de 23 anos, a oportunidade de expandir visões sobre o que se almeja na carreira acadêmica ou profissional tornava o programa uma opção fantástica. "Estudar e trabalhar em outro país, com outra cultura de inovação e, sobretudo, que faz mais em ciência e tecnologia mostra aos estudantes do Brasil que ainda há muito a se fazer para avançar esse setor no nosso país", opinou a estudante.

Ela participou do programa entre os anos de 2014 e 2015 e afirma ser contra o fim do Ciência sem Fronteiras para estudantes de graduação. "É uma perda e é o Brasil que deixa de ganhar. [O programa] é fantástico para o estudante, mas é o país em si que deixa de inovar e progredir em ciência e tecnologia", analisou. Recentemente, Roseane Reis foi aprovada para uma bolsa de doutorado em Biofísica Molecular e Computacional na Universidade de Washington em St. Louis, nos Estados Unidos (EUA).

Outras opções

Mobilidade acadêmica sem o Ciência sem Fronteiras

A assessora de Assuntos Internacionais da UFBA, profª Mirella Lima, reconhece que o Ciência sem Fronteiras faz falta, mas conta a respeito de estudantes que trouxeram outras opções de fomento para o seu intercâmbio, solicitando apenas a aprovação da AAI. “Eu só ouço dizer que [o CSF para a graduação] vai voltar, que já está tudo normalizando, mas eu não vejo isso. Eu vejo as pessoas chegarem aqui desesperadas porque não conseguem”, contou a professora. “Nós temos, aqui, casos de estudantes que descobrem fomento e trazem para a gente […] para suprir a carência deixada pelo Ciência sem Fronteiras”, desabafou.

Para diversos outros jovens, o fim do Ciência sem Fronteiras para a graduação não chega a ser um empecilho na conquista dos seus sonhos. Rafael Queiroz, estudante de Engenharia Mecânica da UFBA, é um deles. Há apenas 7 meses na Alemanha, o estudante faz parte das novas estatísticas ainda não divulgadas pela Assessoria de Assuntos Internacionais (AAI) e acrescenta aos 512 alunos de graduação da sua universidade que realizaram mobilidade acadêmica entre os anos de 2011 e 2015 sem ajuda do Ciência sem Fronteiras.



"Logo no início da faculdade eu tive o desejo de fazer intercâmbio", contou Rafael. Para ele, o mercado de trabalho no Brasil já se deu conta da importância desse tipo de experiência no currículo do engenheiro recém-formado. "Através de conversas com alunos recém-formados, percebi que experiência internacional era um assunto que estava sendo bastante valorizado nas entrevistas de emprego", explicou.

O que forneceu um impulso especial para que Rafael decidisse fazer um intercâmbio - mesmo diante da escassez de recursos vindos dos órgãos de fomento à mobilidade acadêmica - foi a experiência de outro estudante. "Assisti uma defesa de TCC de um aluno que fez intercâmbio em um instituto de pesquisa na Alemanha, chamado Fraunhofer IPT. De tão fantástica e tecnológica que achei a apresentação, pus na cabeça que também queria ir para lá", relembrou o estudante, que ainda deve permanecer por mais 5 meses no programa de estágio do instituto alemão.

Au Pair

Em pesquisa realizada pelo Intercâmbios Acadêmicos a respeito de intercâmbios realizados por jovens de diversas partes do Brasil, uma modalidade se destacou lado-a-lado com os programas de idiomas e graduação. O programa de Au Pair, que ainda não é tão conhecido do público, vem ganhando espaço graças aos esforços de agências interessadas em vender essa modalidade de intercâmbio.



Thaís Gonçalvez é engenheira civil pela PUC de Minas e participou do Ciência sem Fronteiras entre agosto de 2013 e agosto de 2014. Para ela, morar na Itália por um ano destacou a importância de ser também fluente em inglês e essa necessidade acabou a impulsionando para o programa au pair. A jovem de 24 anos afirma que o Ciência sem Fronteiras foi um grande passo na conquista da maturidade necessária para participar do intercâmbio de au pair na Califórnia.



Segundo Jorge da Silva Jr., diretor financeiro da Central de Intercâmbio (CI), uma das maiores agências de intercâmbio com escritório próprio na Bahia, a procura de jovens interessados no programa de au pair aumentou exponencialmente nos últimos anos. "Hoje nós temos uma oferta muito grande, então os critérios de seleção das nossas intercambistas acabou ficando mais rigoroso", explicou. "É preciso ter experiência com crianças e como motorista, além de ter muito cuidado na hora de criar o vídeo que será apresentado no formulário de inscrição".

Com foco em intercâmbio de au pair nos Estados Unidos (EUA), a CI permite que apenas mulheres entre 18 e 26 anos se candidatem ao programa. No entanto, há agências no Brasil que também aceitam homens e mulheres até 30 anos interessados em trabalhar como au pairs nos Estados Unidos e em outros países da Europa.

Thaís Gonçalves destaca também as divergências entre o Ciência sem Fronteiras, programa de bolsas de estudo oferecido pelo governo federal, e o intercâmbio de au pair, que inclui estudo e trabalho e geralmente é intermediado por uma agência de intercâmbio ou por sites especializados. Na opinião da jovem, há pontos positivos e negativos nas duas modalidades.



Futuro

Segundo a assessora de Assuntos Internacionais da UFBA, Mirella Lima, a perspectiva para o futuro é de que os estudantes de graduação voltem a ter acesso ao programa Ciência sem Fronteiras, sem necessariamente estar inseridos em uma mobilidade acadêmica vertical. Ela acredita que os frutos do programa, que aconteceu entre os anos de 2011 e 2016, criaram uma nova consciência no jovem brasileiro com relação à sua percepção de mundo. "Eu acho que essa consciência que os estudantes hoje têm terminará forçando uma nova edição do programa CSF, seja lá que nome ele venha a ter", concluiu a professora.


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